Crise ‘sabor chocolate’: Cotação do cacau despenca mais de 70% em um ano na Bahia

Não é o caso de criar expectativas em relação ao preço do chocolate, mas a cotação do cacau, principal matéria-prima do doce preferido dos brasileiros na Páscoa está despencando. Há um ano, a arroba do cacau em Ilhéus custava em média R$ 803,69. Hoje, o valor médio é de R$ 238,19, de acordo com o painel de cotações da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb). A situação é desesperadora para os produtores rurais, que viram o produto se desvalorizar em 70% em um ano.

O movimento é explicado por uma queda no consumo de derivados do cacau, provocada por mudanças na formulação dos produtos, que contém cada vez menos cacau e que aparecem mais como “sabor chocolate”, ou “achocolatados”. Para completar a equação, os agricultores se queixam ainda da queda na cotação do dólar e das operações de importação do produto. O resultado final é que está sobrando o produto no mercado e a lei da oferta e da procura se faz valer com força total.

Com o avanço do “sabor chocolate”, o mercado do cacau em todo o mundo passou por uma transformação avassaladora. À medida em que a indústria reduziu as partículas em seus produtos, o consumo da semente, que era superior à produção até o ano passado, despencou. De 2024 para 2025, o consumo de cacau no planeta caiu de 5 mil para 4,25 milhões de toneladas. A produção foi de 4,8 milhões, gerando um superavit na oferta de cerca de 500 mil toneladas. É muito cacau.

E por que o “sabor chocolate”? É que para ser considerado chocolate no Brasil o produto precisa ter, pelo menos, 25% de sólidos do cacau em sua composição. Em alguns mercados internacionais, a nomenclatura só é liberada a partir de 35%. Para economizar, tem muita indústria modificando as formulações dos produtos e trocando a manteiga de cacau por outras opções de óleos vegetais.

No ano passado, os preços de chocolates em barra e bombons teve uma alta de 27,12%, enquanto o chocolate em pó aumentou 21,10%, de acordo com dados do IPCA, índice que é usado para medir a inflação oficial do Brasil. No mesmo período, a alta média do custo de vida no país foi 4,26%.

Brasil é um grande consumidor de chocolates, mas a legislação não condiz com o tamanho do mercado. Internacionalmente, precisa ter entre 30 e 35% de sólidos de cacau. Aqui no Brasil é de 20 a 25%, uma legislação frouxa. E a indústria ainda mexeu nos seus produtos. Houve uma retração na demanda por derivados de cacau. Pode ser que os números não tenham se alterado tanto, mas houve um ajuste na indústria, isso é fato. Eu acho que tem muita fragilidade nos números

O produtor rural e diretor da Faeb, Guilherme Moura, explica que 95% de todo o cacau produzido no Brasil é processado em Ilhéus, por três grandes empresas. Além de atenderem o mercado interno, elas fornecem o produto para o mercado externo, com destaque para a Argentina e os Estados Unidos.

Segundo o agricultor, é comum acontecerem movimentações em que as empresas compram o cacau um pouco acima dos preços de referência, ou um pouco abaixo. Atualmente, as ofertas têm sido quase sempre abaixo. “Tem gente vendendo a arroba por R$ 160, enquanto em meados do ano passado se chegava aos R$ 800 nas negociações”, compara.

“O problema é que além de cair muito, os preços caíram muito rápido. Hoje não está nem pagando as contas. Nas condições atuais, a produção se torna inviável”, avisa.

Na última quarta-feira (dia 18), produtores rurais interditaram um trecho da BR-101, na altura de Ibirapitanga, em protesto contra as operações de importação. “O produtor está reclamando porque além da queda no mercado internacional, caiu de US$ 8 mil por tonelada para US$ 3 mil, a indústria está aplicando descontos nos valores da bolsa e justifica isso dizendo que o mercado de derivados de cacau está frio e está com o estoque encalhado. Se está encalhado, por que está importando?”, questiona.

Guilherme Moura acredita que o cenário pode trazer incertezas para os investimentos na ampliação de cacau que estão em curso em diversos estados do país. “Se este cenário se mantiver, muitos investimentos não se pagam. Tem operações intensivas de capital, com uso de fertilizantes e defensivos, que vão depender de preços melhores”, pondera. “Os mais arrojados vão seguir adiante, mas é um balde de água fria na perspectiva de aumento de produção que existia”, avalia.

O diretor de Programas do Instituto Arapyaú, Ricardo Gomes,explica que o cenário atual substitui uma alta significativa nos preços que se registrou em 2024, com vários anos em que a demanda era muito superior à oferta. “Havia o temor até que fosse faltar cacau e isso levou a uma correria na indústria chocolateira para garantir o abastecimento mínimo. O caminho escolhido foi o mudar os produtos, acreditando numa mudança de comportamento do consumidor”, conta.

Fonte : Correio da Bahia

Foto   : Maria Alice Ferreira/Divulgação

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