O governo Lula iniciou ontem uma nova etapa com a saída de ao menos 17 dos 38 ministros para disputar as eleições de outubro. A debandada ocorre em um momento de dificuldade para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem enfrentado solavancos nas pesquisas de intenção de voto. A cerimônia de despedida no Palácio do Planalto, porém, foi programada para ter um caráter de celebração.
O vice-presidente Geraldo Alckmin deixará o comando do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mas, apesar dos rumores sobre divórcio na campanha, continuará a fazer dobradinha com Lula na chapa da reeleição.
A principal tarefa do ex-governador de São Paulo será arregimentar votos de setores conservadores, principalmente no interior paulista. Embora tenha perdido apoio desde que se aliou a Lula, em 2022, Alckmin ainda reúne mais adeptos do que o PT no Estado, de acordo com as pesquisas.
Diante dessa avaliação, o vice também foi escalado pelo presidente para ajudar na campanha do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ao Palácio dos Bandeirantes. Haddad deixou a Esplanada no último dia 20 e passou o bastão para Dario Durigan, que hoje está à frente da equipe econômica. Pela Lei Eleitoral, ocupantes de cargos públicos que vão concorrer a cadeiras no Executivo e no Legislativo precisam sair do governo até 4 de abril.
Na reunião ministerial, fez um discurso de agradecimento ao time que está saindo. Auxiliares do presidente disseram ao Estadão que ele também pediu empenho aos novos ministros – na maioria dos casos, os substitutos serão os atuais secretários executivos das pastas – para fazer o que costuma definir como “mais e melhor”.
A cerimônia de despedida foi planejada para demonstrar continuidade, e não interrupção dos programas, com a chegada dos novos titulares. Longe dos holofotes, porém, o presidente não esconde a preocupação com fatos que vêm causando impacto negativo no governo. Fazem parte da lista de problemas o endividamento das famílias e a tentativa dos adversários de vincular escândalos como o do Banco Master e o do desvio de aposentadorias do INSS à sua terceira gestão.
Lula cobrou uma ofensiva mais forte do PT para associar o senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal desafiante, a uma série de irregularidades: do caso da “rachadinha” a movimentações financeiras incompatíveis com a renda. O pedido foi feito novamente nesta segunda-feira, 30, durante reunião de Lula com coordenadores de sua campanha ao quarto mandato, no Palácio da Alvorada.
A entrada do governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) na disputa presidencial foi vista sem surpresa nem apreensão pelo Planalto.
De saída do governo para disputar uma vaga ao Senado, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que Caiado deve ficar “à margem” do confronto entre Lula e Flávio. “Num quadro como o que nós estamos vivendo, de polarização, é muito difícil a terceira via ter um espaço maior. É a realidade da política”, afirmou Gleisi. “As coisas estão muito consolidadas, polarizadas. Eu acho que ele vai ficar na periferia da eleição”, completou ela.
Sucessão de Gleisi vira impasse
Até a noite desta segunda-feira permanecia o impasse sobre o sucessor de Gleisi no comando da articulação política do Planalto com o Congresso.
O chefe do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável, Olavo Noleto, chegou a ser anunciado como substituto da ministra. Noleto é ligado ao titular da Saúde, Alexandre Padilha, que integra grupo contrário a Gleisi nas fileiras do PT.
Após dias em que o nome de Noleto já circulava como sucessor de Gleisi, no entanto, Lula avisou que, antes de tomar qualquer decisão, iria primeiro conversar com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Argumentou que estava à procura de alguém com mais experiência política para substituir a ministra e negociar com deputados e senadores.
A quase seis meses das eleições, o governo ainda tem uma agenda importante para votar no Congresso, como o fim da escala 6×1 de trabalho, bandeira da campanha de Lula à reeleição, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que ainda precisa passar pelo crivo do Senado, e a regulamentação do trabalho por aplicativo.
O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), e o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), foram sondados para a vaga de Gleisi, mas não aceitaram o convite.
Veja os ministros que deixam os cargos:
· Geraldo Alckmin
· Camilo Santana
· Marina Silva
· Simone Tebet
· Carlos Fávaro
· Rui Costa
· Gleisi Hoffmann
· Silvio Costa Filho
· André Fufuca
· Renan Filho
· Anielle Franco
· Jader Filho
· Waldez Góes
· Sônia Guajajara
· Paulo Teixeira
· Wolney Queiroz
· Macaé Evaristo
Fonte : Estadão
Foto : Divulgação/Reprodução
