O assassinato de Karielle Lima Marques de Souza, 23 anos, e do filho dela, Nicolas Marques Sodré, 6anos, ocorrido no domingo (5), no bairro Novo, em Ibirapitanga, no Sul da Bahia, mobilizou autoridades, entidades e moradores da região. Dados da Polícia Civil da Bahia apontam que, entre 1º de janeiro e 5de abril, foram registrados 23 casos de feminicídiono estado, tanto em 2025, quanto em 2026, o que mantém o cenário de violência letal contra mulheres em patamar elevado.
De acordo com informações da 1ª Delegacia Territorial de Ibirapitanga, o crime é atribuído a Rolemberg Santos de Pina, 32 anos, acusado de desferir golpes de arma branca contra as vítimas. Elas chegaram a ser socorridas, mas não resistiram aos ferimentos, e ainda de acordo com a Polícia Civil, o suspeito foi encontrado morto em um imóvel na zona rural de Maraú, com indícios de suicídio, após fugir do local do crime.
As investigações indicam que o suspeito tentava se relacionar com Karielle, que recusava as investidas por já estar em um relacionamento. Segundo os dados preliminares, ele morava em uma rua atrás da residência da vítima e se aproveitou da ausência do companheiro dela, que havia saído para trabalhar, para cometer o crime.
A Polícia Civil baiana informou que guias para perícia e remoção dos corpos foram expedidas e que o caso segue sob investigação. A ocorrência reforça um padrão identificado em outros registros, em que a violência evolui a partir de comportamentos persistentes e invasivos antes do desfecho letal.
Em nota, a Prefeitura de Ibirapitanga decretou luto oficial de um dia e manifestou pesar pela morte das vítimas. O comunicado destaca que Karielle atuava como atendente de classe no Colégio Edson Ramos, no bairro Novo, onde era reconhecida pela comunidade escolar, e afirma que “a violência contra a mulher é uma grave violação de direitos”.
A gestão municipal também ressaltou a necessidade de denúncia em situações de ameaça, perseguição ou agressão e orientou que casos sejam comunicados à Central de Atendimento à Mulher, pelo número 180, ou às delegacias. A prefeitura afirmou ainda que se solidariza com familiares e reforçou o compromisso com o enfrentamento à violência contra a mulher.
O bloco afro Ilê Aiyê também divulgou nota em que manifesta “profundo pesar e indignação” diante do crime e destaca a trajetória de Karielle como participante do concurso “Deusa do Ébano”. A entidade afirma que ela “era símbolo de beleza negra, potência, futuro e representatividade” e que sua morte interrompe uma trajetória de forma irreparável.
No texto, o Ilê Aiyê aponta que o caso “não é um caso isolado” e o associa a uma estrutura que atinge mulheres negras de forma desproporcional. A instituição defende a adoção de políticas efetivas, proteção às mulheres e responsabilização dos agressores, além de afirmar que seguirá atuando “pela vida das mulheres negras e pela justiça”.
Violência progressiva e impunidade
Para a presidente da Comissão de Proteção aos Direitos da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Bahia (OAB-BA), Fernanda Graziella Barbosa, casos como o de Karielle evidenciam um processo de violência progressiva. “Pelas informações divulgadas, trata-se de uma situação em que havia uma insistência e um comportamento invasivo por parte do agressor, o que reforça um ponto central: o feminicídio, em regra, não é um fato isolado, mas o desfecho de uma escalada de violência”, afirma.
A representante da entidade pontua que o temor da vítima pode fundamentar medidas protetivas de urgência antes de agressões físicas. “Inclusive, é importante esclarecer à sociedade que, em situações como essa, o temor da vítima já é juridicamente suficiente para fundamentar o pedido de medidas protetivas de urgência”, diz.
Barbosa também alerta para a necessidade de não responsabilizar a vítima pela ausência de denúncia formal. “Mas, ao mesmo tempo, é preciso ter muito cuidado para não transferir à vítima a responsabilidade por não ter conseguido acessar essa proteção”, afirma, ao citar fatores como medo, insegurança e desconhecimento de direitos.
Segundo a advogada, a percepção de impunidade deve ser analisada em conjunto com desafios estruturais. “Nem sempre estamos diante da ausência de resposta do sistema de Justiça, mas sim de desafios estruturais”, diz, ao mencionar subnotificação, dificuldade de intervenção precoce e necessidade de fortalecer mecanismos preventivos.
Casos como esse, como destaca Barbosa, reforçam a importância de ampliar o acesso à informação, incentivar a denúncia e garantir que toda manifestação de risco seja tratada com a devida atenção e urgência. Portanto, a Comissão de Proteção aos Direitos da Mulher da OAB-BA atua com foco coletivo em prevenção, orientação e qualificação, sem acompanhar casos individuais.
“Quando uma mulher decide buscar ajuda, ela precisa encontrar um acolhimento adequado, técnico e sensível, que compreenda a complexidade da violência de gênero e saiba orientar corretamente sobre os caminhos legais disponíveis. Além disso, a Comissão exerce um papel institucional de incidência e articulação, contribuindo com o aprimoramento de políticas públicas e dialogando com a rede de proteção para fortalecer o atendimento às mulheres”, aponta Barbosa.
Além disso, ela reforça o compromisso da OAB-BA com a coletividade, de atuar para que nenhuma mulher tenha seus direitos violados. E, principalmente, “para que a informação e a estrutura de proteção cheguem antes da violência atingir níveis extremos”, como destaca a presidente da comissão.
Dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), em parceria com a Secretaria da Segurança Pública, indicam que o estado registrou 891 feminicídios entre 2017 e 2025. No período, a média foi de uma mulher vítima de violência letal de gênero a cada quatro dias, enquanto em 2025 foram contabilizados 102 casos, com redução de 7,3% em relação ao ano anterior.
Fonte : Tribuna da Bahia
Foto : Divulgação/Reprodução
